quinta-feira, 29 de maio de 2008

Ultimas do caso Isabella Nardoni V


Madrasta de Isabela diz que foi pressionada por delegada a denunciar Alexandre Nardoni

Publicada em 28/05/2008 às 19h11m

Wagner Gomes, O Globo Online

SÃO PAULO - Anna Carolina Jatobá, 24 anos, madrasta da menina Isabella Nardoni, disse em depoimento ao juiz Maurício Fossen, do 2º Tribunal do Júri do Fórum de Santana, que foi pressionada pela delegada Renata Pontes, do 9 º Distrito Policial, do Carandiru, a denunciar o marido pela morte da filha. Em troca, ficaria livre da prisão temporária. Ela chorou várias vezes e voltou a negar ter matado a enteada com o marido. Anna Carolina falou à Justiça por três horas e quarenta minutos (das 13h52 às 17h30) e Alexandre começou a depor às 17h55. Ela foi impedida pelo juiz de acompanhar o interrogatório dele e voltou para a carceragem. Diante do juiz, a madrasta de Isabella disse que as acusações contra ela são 'totalmente falsas' e contou a mesma versão apresentada aos policiais na fase de investigação: de que uma terceira pessoa teria entrado no apartamento e matado a menina.

Alexandre Nardoni é levado ao Fórum de Santana, Reprodução de imagem TV Globo

- Recebi pressão para denunciar Alexandre. A delegada Renata Pontes disse que me colocaria na prisão temporária e perguntou se eu tinha noção do que era cair numa prisão, já que não tenho curso superior - disse ela, segundo os assessores do Tribunal de Justiça, que acompanham ao depoimento.

Segundo o depoimento de Anna Carolina Jatobá, a delegada teria afirmado que ela estava acobertando Alexandre por amor. Nesse momento do depoimento, o promotor Francisco Cembranelli que acompanhou o interrogatório fez uma intervenção e disse que no segundo depoimento prestado por Anna Carolina, durante a fase de investigação, em nenhum momento ela havia falado sobre essa pressão.

Anna Carolina não esperou por perguntas do juiz para começar a falar. Passou a primeira hora do depoimento contando os fatos por conta própria. Chorou em vários momentos e falou muito rápido, a ponto de o juiz pedir que ela fosse mais devagar no relato.

O pai e a madrasta de Isabella são réus no processo que apura a morte da menina e respondem por homicídio doloso triplamente qualificado, além de fraude processual.

A madrasta contou que ligou para a mãe de Isabella na quinta para combinar de pegar a menina na sexta. Disse que Isabella estava feliz durante todo o tempo e brincou com os irmãos, Pietro e Cauã. Na sexta-feira, teria tomado banho com Isabella, que teria demonstrado o amor por ela desenhando um coração no box do banheiro.

Em seu depoimento, procurou reforçar informações que poderiam indicar a presença de uma terceira pessoa no apartamento. Desde o crime, o casal sustenta que alguém entrou e jogou Isabella pela janela. Disse que perdeu as chaves do apartamento ao levar as crianças à escola e que houve uma discussão com dois pedreiros que fizeram obras no apartamento recém-adquirido pelo casal. Segundo ela, uma funcionária do prédio sabia que ela tinha perdido a chave.

Sobre os pedreiros, ela disse que acredita no envolvimento de um dos pedreiros com algum tipo de crime. A madrasta contou que, no dia do crime, soube de corretores de imóveis que entraram com três clientes no prédio. Essas visitas não teriam sido registradas, segundo ela, porque o prédio não apresenta segurança.

- A câmera na frente do edifício está lá como enfeite, não grava nada - afirmou.

Anna Carolina contou que no sábado, dia do crime, Alexandre saiu para instalar o GPS no carro e ela ficou com as três crianças. Chorou ao dizer que Isabella pediu pão com requeijão e suco de morango no café da manhã. Disse ao juiz que, depois disso, desceu para a piscina com as crianças.

Neste momento, ressaltou, encontrou o zelador do prédio, que teria perguntado a ela se a menina era filha de Alexandre. Voltou a falar dos pedreiros, dizendo que neste momento teria visto um deles 'de passagem'.

Segundo a madrasta, a família deixou o prédio reunida, pouco depois das 17h, para passar no Sam's Club, em Guarulhos. Disse que Isabella não gostava de shopping e, por isso, teriam ido a um McDonalds na cidade. Em seguida, teriam ido até a casa de seus pais e, depois, retornaram para casa. Nesse momento, ela chorou novamente e um assistente do juiz chegou a dar um lenço de papel a ela.

Anna Carolina negou que tenha ocorrido discussão no prédio da mãe ou no carro durante o trajecto. Ela disse ainda que nunca escostou um dedo em Isabella porque essa tarefa só pode pertencer ao pai e à mãe de uma criança. Em seus dois filhos, Pietro e Cauã, ela disse que apenas deu umas palmadinhas. Deu detalhes de onde cada um estava sentado no automóvel e voltou a dizer, como disse à polícia, que o celular vibrou e ela constatou que eram 23h29m.

A madrasta repetiu a mesma versão que tem sido dada desde a noite do crime: que Alexandre subiu com a menina, deixou-a no apartamento e depois voltou para a garagem para buscar o restante da família. Anna Carolina frisou que ninguém a viu sozinha na garagem esperando por Alexandre.

Anna Carolina negou que tivesse sangue no carro da família e afirmou que o único vestígio de sangue que encontrou foi no lençol do quarto dos meninos, após o crime.

Segundo ela, Alexandre estava com Pietro no colo e ela com Cauã, quando chegaram ao apartamento. Assim que avistaram a tela cortada do quarto, Alexandre foi correndo, subiu na cama com o menino no colo, pôs a cabeça para fora da janela e avistou a filha caída no jardim. Ela disse que o único acesso à janela era pela cama. No entanto, afirmou também ter visto Isabella caída no chão em uma aproximação da janela.

A madrasta de Isabella disse em vários momentos de seu depoimento que desceu com Alexandre no elevador assim que perceberam que a menina havia caído. Ele a teria esperado no hall enquanto Anna Carolina telefonava para o pai dele, Antonio nardoni, para contar o ocorrido.

Ela revelou também ter voltado ao apartamento depois do enterro de Isabella.Até então, sabia-se que apenas o avô de Isabella, Antonio Nardoni, e a tia da menina, Cristiane Nardoni, tinham retornado ao imóvel após o crime.

O juiz fez apenas duas ou três perguntas, entre elas, se Anna Carolina lembrava de ver Alexandre tirando a chave do bolso do hall de entrada, no momento em que ela e os dois filhos entraram com ele no apartamento. O juiz pediu ainda para que ela desenhasse a disposição dos móveis no quarto dos meninos. Em seguida foi a vez do promotor Francisco Cembranelli e da assistente de acusação Cristina Christo Leite. Os últimos a perguntarem foram os advogados de defesa. A advogada Cristina Christo Leite, foi contratada pela mãe de Isabella, e será assistente na acusação. Também estão na sala funcionários encarregados de transcrever os depoimentos.

O pai dela, Alexandre Jatobá, e o advogado Antonio Nardoni, pai de Alexandre, não foram autorizados a acompanhar o depoimento do casal.

O juiz Maurício Fossen, o mesmo que decretou a prisão preventiva do casal e aceitou a denúncia contra o casal, já marcou para os dias 17 e 18 de junho o depoimento das testemunhas de acusação, indicadas pelo Ministério Público. Marco Polo Levorin, advogado do casal, informou que até segunda-feira apresentará os nomes das testemunhas de defesa, mas não informou o número de pessoas.

Casal ficou em celas separadas antes do interrogatório

Alexandre e Anna Carolina deixaram os presídios que ocupam em Tremembé, no Vale do Paraíba, por volta de 21h de terça. A madrasta de Isabella passou a noite na penitenciária do Carandiru, na zona norte, e foi levada ao Fórum por volta de 10h15m. Alexandre dormiu no Centro de Detenção Provisória (CDP) II de Guarulhos e foi levado ao Fórum num carro fechado da Secretaria de Administração Penitenciária, sem janelas, apenas ventilação na parte superior. Ele chegou ao fórum às 11h, quase uma hora depois da mulher.

Os dois permaneceram em celas separadas no Fórum de Santana até o início dos depoimentos, em celas com 3 metros por 2,5 metros. As celas ficavam de frente uma para outra, mas a visão era prejudicada por conta de duas grades e uma tela de metal. Dentro, apenas um vaso sanitário e nenhuma cadeira ou banco para sentar. Mesmo assim, segundo um policial os dois se falaram e Alexandre procurou tranquilizar a mulher. A distância entre uma cela e outra é de 4 metros. Anna Carolina aceitou o almoço oferecido. Alexandre disse que comeria um lanche mais tarde.

Para a polícia, Anna Carolina Jatobá esganou Isabella, causando asfixia mecânica. Alexandre, o pai da menina, a jogou pela janela do sexto andar. Ele teria entrado no apartamento com Isabella no colo e atirado a criança perto do sofá, provocando fratura na bacia, no pulso e machucado a área da vagina.

O pai e a madrasta de Isabella estão presos desde 7 de maio e negam a autoria do crime, ocorrido no dia 29 de Março. Nesta terça-feira, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) negou por unanimidade o pedido de habeas corpus para que o casal aguardasse o julgamento em liberdade. Outro habeas corpus será julgado pelo Tribunal de Justiça de São Paulo em junho.

A defesa do casal contratou o legista alagoano George Sanguinetti para buscar falhas nos laudos feitos pela perícia paulista. Com base nelas, os advogados querem pedir anulação do processo contra o casal e reforçar o pedido de liberdade. Sanguinetti disse nesta terça-feira que os laudos feitos pela perícia paulista abrem a possibilidade de a menina Isabella ter sofrido 'atos libidinosos' antes de ser assassinada. O legista também contesta que a menina tenha sido esganada, antes de ser atirada do sexto andar do prédio, pela janela de um dos quartos do apartamento do casal.

A perícia policial tem outra explicação para as lesões na vagina: Alexandre atirou Isabella com força no chão da sala, machucando a área e causando fratura no osso da bacia e no pulso direito.

A Associação dos Peritos do Estado de São Paulo disse que Sanguinetti quer tumultuar a investigação e vai entrar na Justiça contra o legista .

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1 comentário:

ximbitane disse...

Céus! Que enredo, parece elaborado para uma novela, lamentavelmente uma novela real