quinta-feira, 8 de maio de 2008

CRISE MUNDIAL DE ALIMENTOS


Entre os assuntos que parecem dominar a actualidade, destaque tem deve ser dado à crise alimentar que se vive um pouco pelo planeta todo. A questão passou a me interessar bastante. Gostaria sinceramente que reflectíssemos juntos sobre o assunto. Trago aqui algumas perguntas que me tem incomodado:

1. Qual é a verdadeira causa da crise?

2. A crise tem alguma relação com a questão da desenfreada produção dos biocombustíveis em detrimento da produção alimentar como se tem dito (e eu acredito) ou é apenas uma teoria de conspiração?

3. Quais são as possíveis opções para solução?

4. A quem pertence o papel principal para estancar a crise?

Gostaria mesmo de ouvir de vocês. Penso que ninguém devia estar alheio à essa situação pois no fim do dia ela mexerá com todos nós. Todos

6 comentários:

Nelson disse...

Deixei no fórum do Mozamigos o desafio de reflectirmos sobre o assunto CRISE ALIMENTAR e eis a primeira reacção do pensador Espartano.

...finalmente um tema "verdadeiro"....um tema "real".....um tema "importante"....

Crise alimentar mundial!!!!

Antes de começar a atacar as perguntas lançadas pelo Nelson, devo aqui lembrar que, estatisticamente, neste momento, a nível mundial, SÃO MAIS AS "BOCAS" QUE CONSOMEM DO QUE AS QUE PRODUZEM!!!!!

Qual a causa?
Penso que não se trata de causa mas sim de causas, e aos mais variados níveis (económico, social, politico, intelectual, etc etc etc), e que infelizmente se faz sentir, com maior insidencia, nas camadas sociais mais desfavorecidas. A quem atribuir a culpa?...bem, o que mais se tem notado na procura de um responsável para esta crise, é o apontar de dedo de uns para os outros, o Povo ao Governo e vice versa. Para mim, ambas as partes tem a sua responsabilidade nesta crise, uns porque exigem de braços cruzados e outros porque não se mexem ou não tem para onde se virar.
E muito fácil limpar o pó do nosso capote e passar a assumir uma posição de vitima desfavorecida, e ir para os órgãos de comunicação social atirar pedras a outrem.

A globalização convida, força os povos a optarem por um estilo de vida mais "facilitado", onde ir ao mercado é mais fácil do que ter uma machambinha no fundo do quintal, onde andar de carro é mais confortável do que ir de autocarro, onde ficar a teclar na net é bem mais divertido do que trabalhar....e todo esse estilo de vida facilitado reduz ou mesmo inibe a produção e o desenvolvimento económico-social.
Portanto, eu penso que a responsabilidade deve ser repartida entre as diferentes classes sociais

Em relação aos Bio-Combustíveis!!
Acho que já todo mundo se apercebeu que o que está a dar dinheiro são os combustíveis, mas não creio que estes sejam os responsáveis pela fraca produção alimentar...e se assim for, os seus governos estão a adoptar por politicas, única e exclusivamente, favoráveis as classes media e alta.

Soluções?
Como primeira solução e tenho o exame de consciência individual, só depois é que estaremos capazes de assumir as politicas desenhadas pelos governos e não só. No caso de Moçambique, penso que a revolução verde é um passo importante para a solução de parte da crise, assim como a construção dos Cilos Alimentares em Manica. O incentivo a produção e o melhoramento das condições de escoamento da produção, são responsabilidades governamentais que devem ser garantidas neste combate.

Como disse antes, é mais fácil atribuir a culpa do que suporta-la.....mas o combate a crise mundial de alimentos bem como o combate a pobreza absoluta devem ser assumidos por todos....não fiquemos de braços cruzados a espero que os governantes nos resolvam os problemas....vamos todos a luta...cada um individualmente pode contribuir para um melhoria sócio-económica. Temos todos que vestir a camisa, arregaçar as mangas e não ficar apenas sentados a apontar o dedo aos problemas, e a identificar culpados....porque nos, querendo ou não, fazemos parte do grupo dos culpados.....

...fui, mas volto.....

Vamos esperar que o Espartano volte já que deixou essa promessa aliás o assunto é mesmo interessante.

Anónimo disse...

Caro Nelson,

Vou ocupar me hoje só com a primeira pergunta: Qual é a verdadeira causa da crise? A crise alimentar é um fenómeno global com uma complexa combinação de causas:

1. A primeira causa é o proteccionismo dos países ricos, em particular os subsídios à exportação de produtos agrícolas.

2. A segunda causa da escassez desses produtos de primeira necessidade é a especulação financeira com alimentos no mercado internacional, especialmente na Bolsa de Valores de Chicago, onde os alimentos fazem 40% dos contratos futuros ou opções sobre contratos futuros. De facto o comprador e o vendedor (ambos especuladores), não precisam fazer nenhuma troca de valores no momento da negociação. Como a entrega é futura, e as partes podem liquidar ou compensar os contratos até a última data de negociação, a bolsa exige apenas que o comprador e o vendedor façam e mantenham uma depósito de garantia, até a data de liquidação ou exercício (o que significado com o deposito de USD 1m o especulador de alimentos pode fazer uma transacção de USD 10m, o que faz uma relação de 1:10 entre a liquidez necessário e o valor do negocio). As 10% de depósito dependem da situação financeira ou capacidade de pagamento do especulador (na sua esmagadora maioria fundos de investimento, que beneficiam do comportamento volátil do mercado). A redução das taxas de juro nas EUA aumenta ainda mais a bolha especulativa no mercado internacional de alimentos.

3. A terceira causa da escassez de alimentos é a ideia errada e que a transformação de cereais em energia promoveria a independência energética, o que é bem visível no caso do etanol de milho (produzido com 7,3 biliões de dólares em subsídios agrícolas nos EUA). A produção de um litro de etanol de milho utiliza mais energia do que aquela que esse mesmo litro contém. E a terra usada para produzir os biocombustíveis não esta disponível para produzir alimentos. O avanço dos biocombustíveis promove a desflorestação e concorre com a produção de alimentos. Há igualmente uma imensa perda da biodiversidade.

4. A subida dos preços agrícolas é também causado pela subida do preço pelo barril de petróleo e do gás. A produção, conservação ou pasteurização de alimentos necessitam energia. Há custos pelo armazenamento das reservas alimentares, por congeladores, frigoríficos, fertilizantes, equipamentos, camiões e tractores. Se a energia investida na produção agrícola custa mais, o produto final é mais caro. E devido a forte competição no mercado internacional é difícil transladar o incremento do preço de petróleo para os preços de venda.

5. A quinta causa é a subida do poder de compra em vários países emergentes, como na China, que coloca os seus cidadãos em condições de começarem a levar uma dieta alimentar igual à dos ocidentais, aumentando a procura e pressionando a subida dos preços agrícolas. Nas últimas meses houve um extreme aumento da procura por cereais, produtos lácteos ou oleaginosas, especialmente nos países asiáticos como a China ou a Índia. Transformavam se mais de mil milhões de pessoas de economias de subsistência em novos consumidores, capaz de pagar preços mais altos.

6. A sexta causa são os terrenos não cultivados para a regulação do mercado. Na União Europeia (UE) muitas “reservas naturais” foram criadas a partir de terreno agrícola. Desde anos a UE favorece o abandono das produções agrícolas e pecuárias através de mecanismos de intervenção para a regulação dos mercados. Fruto dessa estratégia da redução de excedentes alimentares e stocks zero são armazéns vazios. Por isso a subida global de preços por produtos alimentares é também a consequência da inexistência de stocks na UE. Quem paga a factura é o consumidor, e desproporcionalmente o consumidor dos países Africanos. Porque a segurança alimentar está ligada a uma reserva estratégica alimentar pela compensação das turbulências dos mercados.

Vou continuar…
um abraço
Oxalá

Jonathan McCharty disse...

A crise mundial esta associada em grande medida aos combustiveis: tanto os fosseis, como os biocombustiveis.
Em minha opiniao, os fosseis estariam a ter um papel preponderante no cenario actual! Tudo depende de combustivel, nao sabemos ainda viver doutro modo....Em aproximadamente 2 anos, o seu preco mais do q duplicou!! Fica mais caro produzir, transportar, etc.
Fala-se tb do "jogo" q esta a ser implementado pelos grandes produtores de trigo...Constou q alguma "injustica" q estava a persistir no mercado desse produto, levou os produtores a boicotarem a sua comercializacao, preferindo assim aumentar os seus stocks. Essa situacao estara na origem do "sky-rocketismo" dos precos (preciso esclarecimentos adicionais).
A estrategia de producao de materias-primas para os biocombustiveis tem o seu impacto ainda "pra vir". Neste momento sera ainda minimo devido fundamentalmente ao uso preferencial de terrenos marginais para a sua producao. Mas nao devemos esquecer o peso da redistribuicao de meios/factores de producao, que antes eram exclusivamente alocados a producao alimentar e outras, cujos processos ja estavam estabelecidos.

Nelson disse...

Obrigado Jonathan. Anónimo fico a espera da continuação

MoçambiqueOnline disse...

PRÓXIMO SÁBADO DIA 10 DE MAIO O MOÇAMBIQUE ONLINE E A RÁDIO ÍNDICO 105.5FM PROMOVEM UM DEBATE COM O TEMA: BIOCOMBUSTÍVEIS E CRISE ALIMENTAR MUNDIAL - IMPLICAÇÕES EM MOÇAMBIQUE.

Vale a pena acompanhar este debate: 105.5FM

http://www.mocambiqueonline.blogspot.com

Nelson disse...

Achei esse comentário do Do Brazil muito interessante:

"O estranho é que este assunto passou a ser manchete mundial pouco tempo depois que se disse que o alcool de milho dos americanos é contra-producente em comparação com o alcool de cana-de-açucar.O terceiro mundo suspirou aliviado com a esperança de verem seus campos transformados em imensas plantações de cana e alguns dolares nos bolsos.O Brasil desde a década de 80 desenvolveu a tecnologia dos motores a combustão movidos a alcool.Isto foi feito como meio de escapar da crise dos combustiveis fosseis surgida em 79,se não me engano.Antes gasolina e diesel eram relativamente baratos e não valia a pena dispender recursos tentando descobrir substitutos para um produto já comprovadamente viável.O petróleo estava onde sempre esteve ha milhares de anos,os oleodutos ,os navios petroleiros e as refinarias poderiam continuar dando lucro por varias décadas.Então não havia com o que se preocupar.O cenário mudou quando os países produtores chegaram á conclusão de que se o consumo continuasse crescendo no ritmo em que estava os poços secariam em 100 anos ,portanto resolveram extrair seus lucros o quanto antes.Hoje sabe-se que a situação não é tão grave assim e a ameaça de paralização das industrias por falta de combustivel não é uma possibilidade que saia constantemente nos jornais e revistas como naqueles anos.E ocorreu até um lado bom,que foi o investimento em outras fontes de energia.O carro elétrico,a energia aeólica (dos ventos) ,a nuclear e até das ondas do mar passaram a fazer parte de estudos mais sérios mas a que encontra-se em uso e é comprovadamente competitiva com o petróleo é o alcool.E esta historia de que vão plantar cana e morrer de fome é pouco provavel porque tem como fazer planejamentos.O problema é que nem todos estão preparados ante estes desafios e, se visarem só os lucros em pouco tempo vão ferrar a população.Claro que a intenção de nenhum governo é esta mas num pais onde existir a monocultura,seja de cana ou qualquer outro produto ,a queda de uma ou duas safras equivale a um tsuname social.
Por exemplo,no Brasil existem plantações de cana enormes mas as colheitas são feitas por maquinas que empregam poucas pessoas e com mais qualificação.Para a produção do alcool é gerada energia numa usina termo-elétrica que utiliza o bagaço da cana.O trabalho é feito 24 horas por dia e utiliza apenas 5 técnicos.Por isso acho que é um engano esperar que nossas plantações vão resolver todos os nossos problemas.
É preciso que se estude passo a passo onde queremos chegar.O intercâmbio de idéias entre países é extremamente necessário.Como foi dito acima ,os países desenvolvidos protegem seus agricultores com subsídios q são o sonho de qualquer agricultor do mundo,o problema é que nossos produtos para entrar no mercado deles é sobre-taxado,com isso ficamos só no mercado interno que por sua vez não tem muito por onde expandir,com isso não se pode investir a não ser com investimento externo,aí caimos na mão deles de novo.Insistir insistir e insistir tem sido uma estratégia.

Estas são as regras do jogo e é com elas que temos que jogar"