segunda-feira, 23 de março de 2009

Para Mariazinha: Memorias de Tete(1)


Oi Mariazinha! A semana passada terminou com as bodas de ouro da cidade de Tete, e eu não consegui não me lembrar dos dois anos(87, 88) que passei por lá. Memórias duma infância intensa.
Me lembrei dos meus tempos na escola secundária da Tete, das minhas rivalidades académicas com o Dário. Isso mesmo Mariazinha, o Dário Monteiro, esse grande futebolista. Ele tinha o monopólio da língua portuguesa e eu da matemática e nos irritavamos quando por um deslize alguém se dava melhor no campo do outro. Nossas brigas foram até ao fim do ano e só tivemos paz quando ambos fomos dispensados dos exames com expressivos 17 valores. Naqueles tempos Mariazinha a gente excluia, chumbava nso exames, não havia esse negócio de passagem automática não. Dário era amigaço no campo. Jogavamos ambos na equipa do bairro(Francisco Manyanga) e o puto era bom mesmo. Tinha muita fama por ter ido a Pyongyang naqueles negócios da OCRM(Organização Continuadores da Revolução de Moçambique) e treinar Tae kon Do. Saudades daqueles tempos!
Me lembrei da “Sandrinha Bonitona”, aquela minha vizinha de pele, tom escuro, ébano puro, bonita como sabor da maçanica. Filha duma D.F(Destacamento femenino) muito respeitada na Messe Militar. Sandrinha gostava que gostassem dela e eu não me importava com isso. Como eu gostava quando iamos juntos à escola Mariazinha! É que fingíamos que eramos um do outro sabe? Iamos brincando de namorados e a malta da escola pensava que eu era o dono da Sandrinha. Ai se eu fosse! Tal como ficou propalado na Messe, Sandrinha me achava muito inteligente e por uma razão muito simples. Sabia toda Messe Militar que o Major Frank vinha transferido do Maputo e assumiram que ele e toda sua prole eram naturais de Maputo, falavam changana e nada mais. Quatro dias depois da nossa chegada a Tete, fui “supreendido” a negociar o preço de massimbe(carvão) com uma velha vendendora, usando para comunicação um “sena” disfarçado em “nhungué”. Só um machangana inteligente, muito inteligente mesmo, podia em quatro dias aprender o complicado nhungué. Quando mais tarde se soube que de Maputo só tinhamos uma curta passagem(um ano) já todo mundo me chamava de inteligente. As vezes penso Mariazinha que bem por outras razões eu era mesmo inteligente.
Lembrei-me das tardes de Sábado e Domingos quando pulavamos o muro do campo de Desportivo para assistir às partidas do campeonato provincial. Eu torcia pelo Estrela Vermelha do Nicolas mas admirava a dupla Zé Maria & Nazaré do Chingale, naquele bonito azul amarelo doado pela Danida. Para além do Chingale, Desportivo, Estrela Vermelha, Matchedje que eram da cidade de Tete, ainda vinham o Feroviário e a Carbomoc de Moatize, e a HCB do Songo. Do futebol íamos directo ao Kudeca. Quem queria perder os K.K(Kucha Kanema)? Quando não tivéssemos dinheiro, nem nos importavamos de empoleirar-se em seja lá oque fosse para vermos as sessões. É nisso que o Cine Esplanada KUDEKA(ser bonito) era nice. No 333 era dinheiro ou estar fora, não havia alternativa.
Me lembrei dos dias que iamos pescar no Zambeze. É que as vezes o calor apertava e não pensavamos duas vezes para dar um mergulho bem dado nas fresquinhas aguas do Zambeze. E quem disse que nos lembrávamos das várias histórias dos famosos “Nhankokos” do Zambeze ?
Me lembrei das caçadas de passarinhos. Quantas vezes sem perceber passamos pelo Nhartanda todo e fomos parar ao Mpadué? As vezes nos mandavam ao Chimadzi para comprar peixe fresco do Zembeze. Foi por lá que passei por um dos momentos mais embaraçosos da vida. Saudades do mucage(peixe mune-mune) de Quelimane me fizeram comprar o “mulamba” que é Tete é um peixe que não goza de muitas simpatias. Para chegar a casa fresquinho como saira do rio tratei de leva-lo fora de qualquer sexto ou coisa semelhante. Quando um grupo de crianças foi me seguindo “a takula Mulamba”, “a takula Mulamba”(está levar Mulamba), percebi que algo estava errado com o peixe. Depois que me explicaram que em Tete os jovens não comem Mulamba fiquei num embaraço terrível.
Mariazinha me lembrei do Nhau(a dança) e das histórias assustadoras a volta dele.
Mariazinha, me lebrei da maçanica, malambe a granel. Me lembrei do calor sufocante. Me lembrei de interessantes dois anos que embora distantes fazem parte desse meu eu de hoje.
Parabens Tete pelos teus 50 anos. Parabens tetenses pelos 50 anos da vossa amável cidade.

4 comentários:

X!mb!t@nE disse...

Eix, Mariazinha! Como ha novidades!!!

Bayano Valy disse...

nélson,
vê-se que tete deve ter-te marcado embora a tua passagem tenha sido curta. acho que devias explicar um pouco certas coisas: por exemplo, porquê é que jovem não pode comer o mulamba? que explicação é que se dá a esse tabú? o que aconteceu aos teus amigos? o dário está em todo o lado, agora a sandrinha?
abraços

micas disse...

Oh Nelson,

Acredita que fiquei comovida com as tuas memórias. Que bom é recordar pedaços felizes da nossa infância.

Vieram-me de repente à memória as minhas memórias de dias felizes em Sawara e Moma.

Como era bom ir "roubar" mangas da casa dos outros. Tirá-las bem verdes e por sal e....nham, nham

Ou quando elas estavam bem maduras, fazer um furinho e chupar todo o seu sumo.Hum...coisa boa

Ou as tardes de cinema projectado na parede do dono da mercearia

Ou a ida aos fins-de-semana para Sawara de boleia com o médico da vila que nos ensinava tantas canções..

Perder-me-ia agora se começasse a escrever todas as coisas boas que vivi na minha meninice.

Obrigada Moma, obrigada Sawara por me ter ensinado a ser quem sou.

Um abraço amigo

Nelson disse...

Ainda bem que nao so minha infancia teve "trapacas". Hehehehehe