terça-feira, 11 de março de 2008

Um Recado para o camarada Gebuza


De Lisboa o Eduardo deixou ficar esse recado para o camarada Gebuza

Se o meu País é um País de tachos, eu não quero ter nenhum, já o disse tantas vezes e, também, dispenso como o meu amigo “ de frequentar os salões doirados com presidentes e poetas, oradores, chefes de câmara” porque eu prefiro a felicidade das ruas, de viver à custa dos amigos que apreciam o que escrevo e o que faço, ao contrário da canalha que insiste em chamar-me bêbedo e depravado e descontentes e frustrados com a vida faustosa mas miserável que levam, essa canalha toda que nunca fará, nem teve e nem terá história nenhuma a não ser a que levam enterrada nas braguilhas, na singular memória dos seus testículos, uns, e dos seus úteros, outras, essa gente que dá socos no ar, presas ao papel dos seus livros, dos seus livros de cheques como é claro, cujas dívidas melancólicas ainda lhes oferecem carros, praias e mulheres ocas e abstractas ou raparigas que adolescem quando mostram a pele jovem das suas roliças pernas.

Esses meteoros da intriga que não compram literatura nenhuma e têm reacções flatulentas defronte das novelas que vêem, dos filmes sem solução, essa gentalha minúscula que não sabe que não me assusta a minha pobreza e que tantas vezes me convidam a sentar-se às suas mesas e me enchem de conselhos fúteis e pobres e me batem nas costas para me chamarem poeta. Filhos da puta.

Não sou um poeta feliz, reconheço-o, também não conheço nenhum que o seja, tirando, é óbvio, os que escrevem com as duas mãos e são muito bem arrumadinhos, muitíssimamente exemplares pais de família e que têm projectos agrícolas em carteira e que vão às compras com as mulheres para atestarem as perfumarias, as lojas de lingerie das amantes dos e das amigas, que têm um cão parvo com nome de gente e com quem falam e lhes recolhem as caganitas com os suspeitos e secretos restos dos seus banquetes, esses senhores tão difíceis de se lhes tocar ou mover que mandam cartões de fim de ano e têm uma máquina de filmar para as férias.

Esses, os que, certamente, têm um sítio para escrever muito limpinho e usam as calças rigorosamente engomadas e gatinham e ladram por alguma cadeira de cabedal e de chefia. Na verdade não passa a sua escrita toda de um animal embrulhado e armadilhado no gemido da tão sôfrega podridão desses senhores. Desses Popeys espinafrados, desses Tarzans do nacional graxismo, desses Mandrakes da democracia. Enfim, desses lambões.

Quanto a mim, olhem, sou uma frase censurada e conformada com tal facto. Já me quis desfazer desta vocação que ninguém percebe, nem lê, nem crê, mas sem resultado. Por vezes até me passou pela cabeça tornar-me naqueles betinhos de que há bocado vos falei. E, no entanto, continuo o festival de fracassos que nem betinho consegue ser. De maneira que lá vou levando a vida que levo. A cabeça engalanada de uns tantos tísicos poemas, de uns paupérrimos tostões que vou tendo no bolso e advindos:
. da generosidade da identidade empregadora,
. dos avaros forretas dos meus editores,
. do facto da minha poesia não vender absolutamente nada,
. de uns prémios magritos da que não me posso dar ao luxo de recusar
. e dos trocadilhos que vou fazendo nos simpósios em que participo.

Sou realmente um paradoxo por criticar-me e não fazer nada para mudar isto. Gostava de escrever melhor em situação bem melhor.

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