quarta-feira, 13 de maio de 2009

A ORIGEM DOS DIRIGENTES CORRUPTOS: Oque Simbine disse e não disse


Li lá no Reflectindo sobre Moçambique, a interessante reflexão, se assim a podemos chamar, assinada por Domingos Alexandre Simbine e publicada originalmente no notícias com o título “ Dirigentes que nós merecemos”. Eu achei interessante porque Simbine “explora” ainda que forma “superficial” as causas do estado de algumas das coisas que frequentemente tenho ouvido por ai.
Apontar o “estado mau” das coisas(seja lá oque for) é oque muitos de nós sabe e gosta de fazer mas procurar as causas, que na minha modestíssima opnião é bem mais importante, já não é connosco. Esse “medo” de ir às causas deve ser< penso eu, porque se o fizessemos, não poucas vezes descobririamos ser parte determinante nas causas dos problemas que revoltados, zelosamente apontamos.
A mêses me “revoltei” com um texto igualmente publicado originalmente no notícias assinado por Tomás D. Queface apontando de forma problematicamente generalizada, os males que enfermam a juventude, sem se ter dado ao trabalho nem que fosse na superfície, de “lidar” com as prováveis causas. Quando apontamos os problemas sejam eles reais e tão evidentes que se torna até certo ponto desnecessário apontá-los, ou problemas menos reais e de difícil identificação, sem nos importarmos em abordar as causas, fica-se na duvida se nossa intenção é realmente vermos esses problemas resolvidos. É que para mim (i)todo problema tem sua ou suas causas,(ii) a solução de um problema exige o conhecimento das causas.
Bem antes que eu me perca, vamos lá falar do que o sr. Simbine disse e não disse.

1. OS DIRIGENTES QUE TEMOS SÃO CORRUPTOS
Da frase introdutória “Por vezes pergunto a mim mesmo, se vale a pena continuar a questionar as atitudes corruptas dos nossos dirigentes” podem tirar-se muitas conclusões mas a que me foi saliente é que Simbine considera “corruptas” as atitudes dos dirigentes, tal que tem estado por algum tempo a “questioná-las”. A que dirigentes ele se refere, todos dirigentes, alguns dirigentes(quais),dirigentes a que níveis, isso não nos diz. Também não nos diz que atitudes dos referidos dirigentes tem considerado de “corruptas”. Simbine não nos diz o conceito de corrupção que usa para questionar as atitudes dos dirigentes. Não o faz provavelmente por achar desnecessário ou menos importante. Fala-se de corrupção em todos os cantos que todo mundo acha que todo mundo sabe oque é corrupção. Saber até podemos saber mas será que estamos na mesma página quando falamos em corrupção?
Um incidente me marcou bastante quando em Abril de 2004 fiz parte da equipa dos inquiridores da Austral Consultoria no “Inquérito Sobre Corrupção e Boa Governação” encomendado se nã me engano pela UTRESP(Unidade Técnica para Reforma do Sector Público). Estava inquirindo uma técnica de laboratório num dos centro de saúde de Quelimane e depois de termos passado por todas as perguntas do questionário onde ela por exemplo tinha que escolher a instituição mais e menos corrupta, chegamos à última pergunta que por ser aberta era a que mais me interessava pois mostrava o grau de entendimento que o entrevistado tinha acerca do assunto corrupção no geral e das perguntas questionário que acabara de responder em particular. A questão vinha mais ou menos assim: “se fosse indicado primeiro ministro e tivesse que desenhar um plano para acabar com a corrupçao oque faria”. Qunando apresentei à minha entrevistada(técnica de laboratório) ela respondeu: “Primeiro sensibilizar os jovens para reduzirem o número de parceiros sexuais, depois sensibilizar-lhes para o uso correcto do preservativo”. Fiz um enorme esforço para não “rachar” bem na frente dela, mas num fundo percebi que grande parte do que ela respondera não tinha nada a ver com oque eu tinha perguntado. Esse incidente mostra claramente que nem sempre, ainda que pareça, estamos juntos.

2. MERECEMOS OS DIRIGENTES(corruptos) QUE TEMOS
“fico-me pela ideia de que, bom, Deus nos tem dado os dirigentes que merecemos”
A “primeira vista” vista pode parecer que Simbine quer dizer que, como se de um castigo se tratasse, somos atribuidos por Deus, os dirigentes que temos. Mas na verdade é bem mais profundo que isso. Simbine chega a conclusão que com uma sociedade como a que temos, como família dirigidas como tem sido dirigidas, termos dirigentes diferentes dos que temos é algo “não possível”. Fica no ar a sentença, “enquanto as coisas por parte das famílias continuarem como estão, continuaremos com os dirigentes que temos, ou simplesmente diregentes com atitudes corruptas”. Aqui fica também uma pitada de esperança. Estamos perante uma situação reversível. Essa esperança se torna robusta se tivermos em conta que embora me pareça que Simbine tenha generalizado, há famílias que ainda se regem com uma boa dose de valores morais e igualmente, seja lá qual for o conceito de corrupção que ele tenha usado, haverão dirigentes que se possam considerar “saudáveis”. Eu penso que é nessa esperança que devemos “abraçar”. Temos como mudar as coisas.

3. NÃO TEMOS CULTURA DE HONESTIDADE E TRANSPARÊNCIA
“É-me difícil continuar a exigir que os nossos dirigentes sejam pessoas honestas e transparentes, quando como povo não temos cultura de honestidade nem de transparência”
Simbine apresenta aqui um princípio que vale a pena capitalizar. Na “fome de justiça” muitas vezes deixamos de ver as nossas próprias “injustiças”. Pior do que isso tem vezes que conscientemente “sufocamos” a consciência que nos grita as nossas injustiças e fazemos isso gritando as injustiças alheias. Nesses casos pode-se ver que apesar de exigir justiça ser um gesto bom, infelizmente não estamos exigindo justiça por acreditar que seja algo bom e necessário não só para nós mas também para os outros, estamos simplesmente fazendo para mostrar ou tentar mostrar o quão bom somos ou evidenciar o quão mau os outros são.
Aqui vale a pena tentar “mastigar” os conceitos HONESTIDADE e TRANSPARÊNCIA e eu vou começar por transparência que me parece mais acessível. Na minha simplicidade, ser TRANSPARENTE é criar condições para que qualquer um que queira, tenha conhecimento do que fazemos, como fazemos e até porque fazemos. Para enriquecer, podemos também deixar claro acerca dos recursos que usamos no que fazemos, sua proveniência e os resultados que com eles alcançamos. Eu só quero tentar ser o mais simples possível nessas definições.
Ser HONESTO é ser verdadeiro em seus atos e declarações, procurar não ser propenso a enganar, mentir ou fraudar. Olhando para alguns questionamentos que Simbine faz e considerando algumas experiências vividas, dá para perceber que realmente essa coisa de “ser verdadeiro em atos e declarações” faz muita falta na sociedade em que nos encontramos.

4. A FAMÍLIA É A CELULA BÁSICA DA SOCIEDADE
“sendo a família a célula básica da sociedade e onde é forjado o homem do amanhã, torna-se-me difícil compreender que, não havendo honestidade nem transparência na sua gestão, possa haver uma boa gestão da coisa pública por um governo constituído por homens e mulheres nela forjados”
A sociedade seja lá qual for a definição que for usada, depende da família para sua formação. A sociedade tem por isso a cara da família. Simbine defende que só podemos ter um governo saudável se tivermos famílias saudáveis. Transparência, honestidade, sinceridade, integridade, dignidade, lealdade e todas outras “dades” que possam existir são forjadas na família. Portanto as qualidades que exigimos(procuramos colher) dos nossos dirigentes, deviam ser “semeadas” na família. Voltando para a questão da reversibilidade da situação, poderiamos dizer que, o que queremos ver nos dirigentes de amanhã deve começar a ser semeado hoje.
Que a família anda desestruturada é um facto embora não podemos nem devemos generalizar. Os questionamentos de Simbine são tão interessantes que vale a pena olhar de novo para alguns deles.
• “Quantos chefes de família partilham os seus rendimentos e despesas de forma aberta e transparente com as suas famílias?
Simbine acredita que existem chefes de família que democraticamente discutem o que é prioridade para família. Quem cresce num ambiente desse, aprende desde muito cedo que uma decisão cuja consequência boa ou mã recairá sobre muitos, deve, sempre que possível, ser tomada com o envolvimento desses “muitos”. Chego a ser dirigente e sei muito bem que não devo tomar uma decisão que vai afectar a vida de milhares de pessoas sem uma consulta ou ao menos dar-lhes a opurtunidade de se fazerem ouvir.
• “Quantos chefes de família estão preparados para prestar contas às suas famílias (lares) sobre o que fazem ou devem fazer com os rendimentos que auferem?”
Essa falta de preparação vem do facto da consciência de que algo que não devia, foi feito com os rendimentos que devia beneficiar só e só à familiar. Ser chefe duma família nessas condições e vir cá na praça dizer que os dirigentes devem prestar contas do que fazem é pura hipocrisia.
• “Quantos homens estariam preparados para abdicar dum copo de cerveja com amigos e amantes, para garantir que seja acesa a fogueira em casa?”
Aqui, Simbine chama-nos atenção à questão de prioridades. O princípio usado no “beber uns copos com amigos e amantes em detrimento de pôr pão na mesa para a família” deve ser o mesmo de comprar uns caros super luxosos para um grupinho de gente já bem abastada, em detrimento de comprar uma ambulância para o povo supercarente que tem que percorrer uns bons quilometros para a unidade sanitária mais próxima, só um exemplo.Detestamos um mas vamos noutro sem nem sequer notar que existe semelhancas.

Quase a terminar simbine diz: “Como se não bastasse, a cada eleição voltamos às urnas e legitimamos estas incongruências com o nosso voto inconsciente, pois eles são os dirigentes que Deus nos destinou.”
Sendo esse ano, o ano das 3 eleições a sua “chamada de atenção” chega em boa hora, mas oque se pode fazer a curto prazo? Temos como evitar que o voto seja “inconsciente” como tem sido? Há como conscientizar o povo a votar com consciência? Para já oque significa voto “consciente”?

QUEM NÃO TEM PECADO ATIRE A PRIMEIRA PEDRA

Se a conclusão a que devemos chegar é que “antes de questionar as atitudes corruptas dos nossos dirigentes” temos que nós mesmos cultivar a “honestidade e de transparência” que exigimos nos dirigentes então temos muito que fazer. Começar desde já a semear oque queremos colher. Do que Simbine diz temos que começar a prestar mais atenção no que fazemos a ver as semelhanças com os “pecados” que apontamos nos dirigentes. Se os dirigentes são corruptos porque são forjados em famílias corruptas e tomam decisões corruptas que tornam a sociedade(as famílias) corruptas então estamos cilclo vicioso.

5 comentários:

Júlio Mutisse disse...

Meu caro amigo Nelson,

Fico feliz por este post. Por estas andanças blogosferianas já fui ostracisado por pedir que as pessoas abandonem o senso comum superficial consubstanciado na ideia de que todos sabemos do que falam, dmitindo-se de clarificar as premissas de que partem para as conclusões a que chegam.

Mas este indagar frequente é necessário e importante. Nós que temos a chance de vir a público e dizer coisas desta natureza, temos que clarificar o máximo possível o que queremos dizer, temos que deixar claro que não estamos a especular e que estamos a falar de coisas concretas das quais temos pleno domínio.

Voltando a carta do Sr. Simbine, achei-a de facto interessante. Comentei no blog em que vi que era uma reflexão interessante, traz muitas coisas. Como pai que sou, fez me reflectir nas mensagens que explicita e, sobretudo, implicitamente passo para as minhas filhas, e o reflexo delas no devir. Tenho que mudar muitas coisas.

É evidente que não fechei os olhos a questão da generalização. Me perguntei se os meus parentes que fazem parte do quadro dirigente da nação são corruptos (em que medida) e se fazem parte desse quadro "como castigo" merecido pela nossa actitude que só propicia o aparecimento de corruptos como eles... hehehe eu que conheço a realidade de um deles disse não são todos corruptos.

Mas Nelson, tu também não foges de uma generalização que não fundamentas. Falo concretamente do "facto" que é para ti a desestruturação da família. Não vi fundamentos que me digam que a minha família, a sua e a dos demais estejam, de facto, desestruturadas. Em que medida. I want you to clarify that.

Mas Nelson, juro te que gostei deste seu post. Acho que é isto que temos que fazer SEMPRE, questionar, e desafiar até os conceitos que julgamos dominar. Se todos o fizéssmos...

Já agora, aceite o desafio que lanço no meu último post...

Um abraço.

Mutisse

Nelson disse...

Thanks Mutisse por passares por cá e deixares esse comentário rico.
Eu penso que só ficamos a perder quando nos “apegamos” a essa mania de “senso comum superficial consubstanciado na ideia de que todos sabemos do que falam, demitindo-se de clarificar as premissas de que partem para as conclusões a que chegam”. Grande parte da “confusão” que assistimos nos debates em que nos envolvemos, na minha opnião, surge disso. Assim que começamos a indagar, se pensa logo que estamos a discordar em parte ou totalmentecom oque se disse quando na verdade pretendemos ter certeza que o que entendemos foi oque se disse ou se pretendia dizer.
Deixa-me começar pela generalização que sem querer e sem perceber faço em relação à “desestruturação da família”. Por “família desestruturada” quis simplesmente falar de famílias onde os seus membros consciente ou inconscientemente deixaram parcial ou totalmente de assumir os papeis que se esperam deles. Pais iresponsáveis, “ausentes” desfarçadamente “mentores” de atitudes negativas nos seus filhos. A luz dos questionamentos que Simbine faz, dá para perceber que tem muita coisa que como pais ou chefes de famílias se faz sem ter ideia dos prejuízos futuros. Coisas que de tão habituados que estamos, deixaram de ser “negativas” e só as detectamos na versão “magnificada” nos dirigentes. Haverem mudanças que dizes pretender promover, deve ser “prova” que hajam em si como chefe de família oque se pode considerar alguns “desvios” que felizmente descobristes e pretendes sanar.
Sinto-me encorajado quando o amigo diz que “Como pai que sou, fez me reflectir nas mensagens que explicita e, sobretudo, implicitamente passo para as minhas filhas, e o reflexo delas no devir. Tenho que mudar muitas coisas”. Eu penso que diante dos “defeitos” de chefes de famílias levantados por Simbine a atitude certa é essa que o amigo tomou.
Para a “força” do texto de Simbine está no facto de nos “obrigar” a mudar de foco. Simbine nos “pede” para pararmos de simplesmente olhar nos problemas e começarmos a prestar atenção para as provaveis causas.

Um forte abraço do Chitengo-Parque Nacional da Gorongosa
P.s: Perdi a bela opurtunidade de “conhecer” em pessoa a Nykiwa que segundo me disse esta desde o Domingo no Chiveve.

Wakuichinga disse...

Alo mano
Defacto essa corja toda de corruptos vem das nossas casas, portanto cabe a nos educar bem os nossos filhos hoje para fazer-lhes bons cidadao amanha.

Nelson disse...

Obrigado Wakuichinga por teres passado pelo “Meu Mundo” e teres deixado teu breve comentário.
”De facto essa corja toda de corruptos vem das nossas casas, portanto cabe a nós educar bem os nossos filhos hoje para fazer-lhes bons cidadãos amanha”
Bem dito amigo mas esse “educar bem os nossos filhos” que dizes precisa ser bem “dissecado”. Oque significa em termos práticos “educar bem”? Me questiono nesses questões porque penso que as vezes são questões bem súbtis que precisam ser consideradas. Como conciliar por exemplo a necessidade que o pai tem de trabalhar longas horas para garantir o sustento da família com a necessidade de estar presente para “influenciar” os filhos? Como estar presente para “monitorar” oque os filhos “consomem” da televisão? Como acompanhar oque aprendem da escola? Como aranjar um tempinho para lhes ver os cadernos? Aqui estão apenas alguns exemplos de desafios para os pais. Por isso te peço amigo, que se possível volte e venha enriquecer o teu comentário. Quando dizes “educar bem os nossos filhos” oque é que estas a sugerir em termos práticos?
Abraços calorosos

Júlio S. disse...

Nelson, um "passarinho" (por acaso lindo de matar) me contou que esteve no Chimoio nos últimos dias; espero que já tenha regressado e que tudo tenha corrido bem.

A Nyikiwa colocou-nos, partindo de um post meu lá nas subversivas, a ideia de distinguirmos a escolarização da educação. Foi um desafio interessante.

Muitos de nós, enquanto pais, nos demitimos das duas funções e entregamos tais funções à empregada e a TV (no caso da educação) e ao Estado no caso da escolarização.

Não sei se alguma vez o meu amigo foi a uma reunião de uma criança de 10/6 anos (idade das minhas filhas) e ouvir as baboseiras que muitos pais dizem. Pais de crianças que, muitas vezes o que levam na pasta é o lanche (única preocupação do pai/mãe) sem cadernos e/ou livros/lápis/esferográfica... pais com a petulância de dizer ao professor que "não se chumba" por isso se reservam ao direito de deixar os seus filhos a balda.

Educar bem para mim, é dar/ensinar um conjunto básico de valores que permitam aos nossos filhos se inserirem na sociedade respeitando as suas regras, a viverem com dignidade e merecerem o respeito dos demais; educar comporta um conjunto vastíssimo de valores que devem ser inculcados desde a infância incluindo amor próprio, respeito pelos demais, amor pela pátria e, why not, como diz o simbine: criar riqueza hehehehe.

Mas no educar também cabe acompanhar o processo de escolarização atribuído a outras entidades públicas ou privadas. No caso das públicas, as dificuldades conhecidas que não são exclusivas do sector da educação e cultura, deviam fazer soar em qualquer BOM EDUCADOR o sino da necessidade de acompanhamento permanente dos nossos filhos, não é substituição do professor mas em auxílio dos nossos filhos e, inclusive, do próprio professor. Acho uma aberação pensar que, sendo o ideal ter 25 a 30 alunos por turma, com os 65/70 que as turmas do ensino primário contemplam o professor pode desempenhar, na plenitude a sua função como agente transmissor de conhecimento que se quer científico (em casa também transmitimos conhecimento ao educar os nossos filhos).

Então, educar bem é um conjunto destas e MUITAS outras coisas. Infelizmente há quem as negligencie.

Mutisse