sábado, 23 de outubro de 2010

NGANU ZA GORONGOSA NA VOZ DO AUTOR


Domingos Muala, autor do Nganu za Gorongosa, é amigo e colega no Projecto de Restauração do Parque Nacional da Gorongosa. Aqui no Chitengo ele é uma espécie de abelha obreira “metido” quase com todos e tudo que faz parte da vida do acampamento. Domingos gosta de trabalhar em comunidades enriquecendo-se de saberes que só lá se podem colher. Conversar com ele é simplesmente agradável e eu não perco por nada a opurtunidade de trocar umas ideias com ele. No dia 20 de Outubro fez mais um ano de vida e usei isso como pretexto para uma entrevista onde pretendia especialmente, saber mais acerca da sua obra recentemente publicada, Nganu za Gorongosa. 
Eis a conversa que tivemos:

  MEU MUNDO:Dum modo geral qual é a sensação de ter um livro publicado? 
DOMINGOS MUALA:Victória para o povo residente na grande Gorongosa. Seu entender do mundo já vai além Gorongosa em papeis impressos como o saber de qualquer povo "civilizado" com história, cultura, percepção do mundo por ai em diante. 

M.M:Quando e como nasce seu interesse pelos contos da Gorongosa? 
D.M:O meu interesse nasce a partir da altura em que notei que a sabedoria local, de tão rica que é, já começa a não fazer parte do interesse da nova geração. A nova geração já não tem muito tempo de sentar com os detentores do saber tradicional local para apreender-lhes o legado cultural. Senti a necessidade urgente de encontrar uma forma de levar a ´escola à volta da fogueira´ para os novos ambientes onde os saberes são adquiridos. 
M.M:Dum modo geral que importância tem essa obra para os diferentes estratos sociais?
D.M:Os Contos da Gorongosa (titulo de livro em português) ajuda a perceber a origem e a povoação da Gorongosa. Dá a saber como eram as relações sócio-ecológicas quando havia pouca gente na antiga Gorongosa.
M.M:Até que ponto Nganu za Gorongosa pode ser considerado uma feramenta que ajude a entender o ser e estar do Magorongozi?
D.M:Se leres a sabedoria transmitida pelo Samatenje, o líder espiritual mais influente na Gorongosa, facilmente poderás perceber como o nativo da Gorongosa se une fielmente aos ideias dos seus antepassados. Se leres a história contada pelo régulo Canda, facilmente poderás perceber como é que os régulos, os líderes máximos dos regulados, eram escolhidos, são escolhidos agora. Se leres a sabedoria transmitida pelo régulo Tambarara facilmente poderás perceber a espititualidade do nativo e a forte crença que tem da protecção dos seus antepassados omnipresentes. Portanto, estou a tentar dar alguns exemplos que acredito ajudam a perceber o modo de ser e estar do homem nativo da Gorongosa. Mas ao longo dos textos deparar-se-á com mais situações que ajudam a entender o biológico, espiritual e o transcendal do duma ou simplesmente nativo da Gorongosa.
M.M:Que relação se pode estabelecer entre os saberes incorporados nos contos e a vivência actual nas comunidades de Gorongosa?
D.M:Cada época tem seus desafios que, não reproduzindo exactamente o passado como foi, trazem-nos novos elementos que conjugados com o que de positivo houve no passado perfaz uma convivência mais harmoniosa. Ou simplesmente os contos centralizam a essencial da vida em torno dos mais velhos. Que os casamentos sejam da escolha dos pais, por exemplo, e que a noiva ou noivo sejam escolhidos pelos pais pode não se ajustar à sociedade heterogénea actual. Mas o essencial mantém-se: que os cantos são uma grande fonte de sabedoria e inspiração das convivências actuais isto é sem dúvidas uma verdade. 
M.M:Partindo do princípio que nem todos contos “colectado” fazem parte da obra, que critérios foram usados para a seleção?
D.M:Na verdade recolhemos mais de 200 contos em comunidades diferentes da Serra da Gorongosa. Tivemos a paciência de transcrever todos. A escolha foi nos muito difícil. Um dos critérios foi pegar nos contos que a maior parte da comunidade partilha. Depois tivemos de ver os contos que transitam os três regulados da Serra. Isto é, contos que as três comunidades contaram embora cada uma aumentasse um ponto e subtraísse. Depois tivemos de ver o valor cultural, sócio-ecológico, histórico e didáctico de cada conto. De facto foram vários os critérios usados para chegarmos a ter este punhado. Se tivermos mais oportunidades poderemos trazer mais e mais contos recolhidos para as mãos dos que gostam de ligar-se ao passado para verem melhor onde vão.
M.M:Existe algum que considere seu conto preferido? Porque?
D.M:Depende da perspectiva em que eu tomar. Ou seja, ponho na cabeça a perspectiva ecológica diria que o conto “Há muito tempo havia gigantes” seria meu conto preferido pois mostra que há muito tempo nenhum humano vivia na Serra. Nesse tempo a Serra era mais “sagrada” e o sistema ecológico funcionava harmoniosamente a maneira que a natureza o desenhou. Muitos riachos tinha água abundante e que circulava todo o ano. Essa água esteve na origem da diversidade ecológica da região da Gorongosa e fez com o Parque nacional da Gorongosa tivesse tanta riqueza de animais muito saudáveis. Se levo outra perspectiva direi que o conto Two Magic Sticks ajudava-me a perceber as grandes dificuldades que uma mulher enfrenta numa sociedade patrilinear. Mas, se levo uma perspectiva de professor escolho o conto O caçador e a cobra que ensina que não podemos viver tratar os irracionais como racionais por mais bondosos que os irracionais pareçam, não deixarão de ser irracionais. Este conto tem muitas lições a dar. Outra é perseverança nos actos bons embora seja difícl. Portanto, depende da perspectiva que o Nelson quiser que eu tome poderei escolher um conto para tal.
M.M:Que impacto se espera na comunidade académica da Vila da Gorongosa.
D.M:Que é bom lutar por emancipar também a componente das convivências sociais locais. Reconhecer que uma comunidade é conhecida quando se tem informação sobre ela. A Gorongosa não apenas tem um grande Parque e muita terra fértil, mas também tem humanos que têm uma maneira particular de perceber, lidar-se e sobreviver no solo que seus antepassados os deixaram.
M.M:Fala-se da falta de hábito de leitura em Moçambique. Concorda? Se sim quais seriam os factores e como corrigir?
D.M:Acho que falta de hábito de leitura existe em muitas comunidades pobres do mundo inteiro. Não é fácil alguém que não tem certeza se vai almoçar ou jantar, queimar tempo a ler. O mais natural neste caso é atender as necessidades biológicas mais primárias como a fome, o sono, o prazer sexual, o vestir e menos as necessidades espirituais como a leitura e cultura do espírito. Acho que as pessoas vão corrigindo à medida que tem certeza de que já podem alimentar o espírito pois o corpo, no qual o espírito vive, tem os elementos necessários à sua existência sadia. E claro, vamos promovendo hábitos de leitura quando temos acesso aos livros para ler mesmo que não seja para passar por uma avaliação.
M.M:Acredita que livros como Nganu za Gorongosa são a grande porta para que os jovens se interessem pela literatura?
D.M:Acho que dão um contributo. Muitas das vezes temos livros que falam sobre outros povos, culturas, etc, e poucas vezes temos acesso a um livro no qual um vizinho partilha connosco a sua sabedoria. O Nganu za Gorongosa é esse livro no qual pessoas vivas, que se cruzam connosco todos os dias têm suas fotos ao lado da sabedoria que transmitiram eternamente. Acho que é um orgulho alguém poder partilhar o que sabe com o resto do mundo dentro e fora da comunidade.
M.M:Fez a dias(20 de Outubro) mais um ano de vida, tem um livro publicado, certamente que tem um filho e já plantou uma árvore, algum sonho ainda por realizar?
D.M:Poder ajudar o ecossistema da Gorongosa a organizar e documentar o seu vasto saber em livros de sabores diferentes. Estou a terminar reconstruir a história do Chitengo a fase de Chitengo pessoa até a fase de Chitengo acampamento turístico do Parque. Estou igualmente a terminar uma outra versão do saber das comunidades à volta da Serra da Gorongosa em um livro. E Claro, já pode ler uma gama de crónicas que desde 2008 tenho vindo a escrever sobre esta região, a restauração do Parque da Gorongosa, a naturalmente as comunidades à volta do Parque.  
M.M:Obrigado pela entrevista! Gostaria de deixar alguma mensagem para quem quiser saber mais sobre Nganu za Gorongosa?
D.M:Como obra inaugural, gostava de saber a reacção dos leitores. Com base nas sugestões, comentários, etc, poderemos melhorar o serviço ao público amante da Gorongosa. Então, depois de termos a certeza de que temos comida, onde dormir, o que vestir e talvez uma companheira, vamos ler os Nganus za Gorongosa e depois dar o nosso comentário para melhores obras futuras.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Moçambique é o maior exportador informal de milho da África Austral

Hoje "cruzei-me" aqui  com a notícia que se segue e achei simplesmente interessante.

Apesar de ser um país com um défice crónico de alimentos, Moçambique regista as maiores exportações informais de cereais na África Austral, indica o Relatório de Avaliação da Situação de Segurança Alimentar e Nutricional em Moçambique.

Segundo o Relatório do Secretariado Técnico de Segurança Alimentar e Nutricional (SETSAN) do Ministério da Agricultura, "Moçambique lidera a lista de exportações informais de milho, com 54 por cento de exportações regionais para Malawi (11,887 toneladas métricas), Zâmbia (943) e Zimbabué (uma tonelada), com um acumulado de cerca de 14,000 toneladas métricas de Abril a Junho do ano corrente".

Durante o ano passado, foram vendidas por produtores informais moçambicanos 33 mil toneladas métricas de milho aos países vizinhos, contra apenas 20 mil do segundo maior exportador informal, Malawi, e 10 mil do terceiro, Zâmbia.

O centro e o norte de Moçambique são as duas regiões do país que mais comércio informal transfronteiriço de milho realizam, apontando-se as dificuldades de acesso ao mercado interno como a principal razão da situação.

"O fluxo normal dos produtos agrícolas comercializados no país é no sentido norte e centro (zonas produtivas), para a zona sul (zona consumidora) e também para os países vizinhos, através do comércio transfronteiriço", lê-se no Relatório SETSAN.

O documento aponta para um crescimento na produção de cereais na ordem de 3,9 por cento, para 2.917.529 toneladas de cereais, em 2011, dos quais 2.188.544 toneladas de milho e 282.000 toneladas de arroz.

Nas leguminosas estima-se uma produção de 436.430 toneladas, um crescimento de 3,6 porcento, e a mandioca 10.661.499 toneladas.

Um total de 350 mil pessoas precisam de assistência alimentar urgente e de sementes agrícolas, em 67 distritos de Moçambique, até chegarem às próximas colheitas, a partir de Março de 2010, de acordo com a mesma avaliação.
Fonte: RM/Angop

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

CONVITE

O Parque Nacional da Gorongosa vai estar presente, no stand de  Moçambique (AF410), em Londres no WTM(World Travel Market), que terá lugar de 8 a 11 de Novembro no ExCel London(*).
 No dia 10 de Novembro, às 16:00, "Africa’s Lost Eden", o filme da National Geographic sobre o Projecto de Restauração da Gorongosa vai ser exibido na ExCel North Gallery, Room 17.
 "Africa's Lost Eden" ganhou recentemente o "Gold Dolphin Award" em França, no "Cannes Corporate Media and TV Awards", na categoria  "Environmental and Ecology". Desde que foi exibido em Washington DC, no passado mês de Abril, o filme tem sido premiado em diversos Festivais de Cinema: Alemanha (Grande Prémio), Estados-Unidos, Canada, Brasil, Roménia, Portugal (Grande Prémio), Letónia (Grande Prémio), Irlanda, Sérvia (Grande Prémio) e África do Sul. 

(*) ExCeL London fica situado em "London's Docklands" na zona Este de Londres, próximo de Canary Wharf

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

DO CHITENGO ONDE MORO: carta para Mariazinha XXII

Olá Mariazinha!
As culpas por não teres notícias daqui devem agora ser repartidas por “duas aldeias”. A minha e a do René que também tem a obrigação de te escrever. Eu vou fazer a minha parte.
O verão chegou e agressivamente. O calor é intenso oque gera frequentemente cansaço e mã disposição. Dizem que há grandes chuvas esse ano mas é apenas previsão e pode não acontecer.
Mariazinha, vão mexer com a nossa constituição. A dita lei mãe. Parece que tem gente que acha isso importante e prioritário(urgente) e estão mexendo com tudo e todos para que seja já agora na segunda sessão da AR. Importante até talves seja amiga amiga mas urgente como estão a fazer parecer não sei se é e o pior ainda é que ninguém já veio dizer claramente oque se pretende rever e porque. Em linhas gerais fala-se de "acesso a uma justiça célere e justa; modernizar a estrutura burocrática no país e fazer com que o texto constitucional tenha melhor arrumação, sistematização e seja mais congruente” oque para mim é muito pouco. Falar de rever a constituição para termos uma “justiça célere e justa” por exemplo é muita malandrice pois num fim do dia é a falta de meios técnicos e financeiros é que muitas vezes se mostra ser a pedra de tropeço. Há quem talvés em brincadeira, disse que a revisão da CR é urgente para se definir o conceito bancada parlamentar sob risco de nas próximas eleições algum partido conseguir um único deputado e reclamar o direito de formar uma bancada. Veja só Mariazinha como falta seriedade nos nossos compatriotas!
Os que são contra, alegam os custos que isso pode acaretar numa altura em que se fala e muito de medidas de contenção de custos. Bem vamos lá esperar para ver só como a coisa termina.
Mariazinha, houveram mexidas de vulto na constituição do governo. Sei que já deves ter ouvido falar disso mas não tens ideia como o assunto continua “alimentando” as conversas do povo. Destaca-se a “queda” de Ivo Garido da Saúde e a mudança de Pacheco do MINT para o turbulento MINAGRI. Nos dois casos fica-se sem entender bem as razões. Maior divergência surge no caso de Ivo que para uns era o bonzinho e para outros o mauzinho. No caso do Pacheco não se entende oque ele fez bem no MINT que garantisse ao PR que no MINAGRI fará ainda melhor. Se é pelo facto de ser agrónomo que lhe levam para lá ainda se perguntam porque não o puseram lá logo a primeira. Essas e muitas outras questões são levantadas enquanto os maldosos chegam a dizer que essas mexidas são ainda resultados das violentas manifestações de 1 e 2 de Setembro. Eu não sei.
A terminar, notícias bem daqui. Está aberto um concurso para operadores turísticos que estejam interessados em explorar algumas das 7 áreas com alta potencialidade turística dentro do Parque Nacional da Gorongosa. Um aturado trabalhado vinha sendo feito na identificação das áreas, avaliação das reais potencialidades e actividade turísticas por desenvolver em cada área e na semana passada foi finalmente lançado o concurso público.
Bem vou ficar por aqui
Abraço forte de Chitengo 
P.S:Veja oque o René me manda escrever

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Os produtores de miséria

As mexidas que o PR efectuou na sua equipa governativa, na semana passada, continuam a dar que falar. Ivo Garido é oque mais diverge a opnião pública. Uns completamente a favor da medida do PR e outros totalmente contra. Mia Couto deixou ficar no jornal O PAÍS a sua opnião em relação à mexida


Num festival de música do Brasil, ainda em tempo de ditadura, venceu uma canção de Chico Buarque chamada “A banda”. A letra era singela e quase inócua com o estribilho, sugerindo a nossa condição de espectadores da vida dos outros, na janela da nossa existência, vendo a banda passar. A canção que perdeu a favor de Chico era um espécie de hino contra a repressão da autoria de Geraldo Vandré. Recordo a letra dessa outra canção: (…) pelos campos fome em grandes plantações”. Estava ali, numa poesia cruel, algo que só podia ser dito assim: a fome, muitas vezes, cultiva-se.

Também se cultivam olhares e formas de pensar. Por exemplo, nós insistimos em olhar para o país como um casa de família. Há um pai, a mãe, os tios, os primos. E nós, os filhos, que olham para cima, quando se trata de decidir e olhamos para o lado, quando se trata de pedir contas. Aprendizes cegos da obediência, capazes de refilar contra os excessos da autoridade paterna, mas prontos a puxar lustro aos sapatos dos mais velhos, sempre que dessa submissão resultar algum ganho.

Na lógica familiar a grande figura do pai é inquestionável. Que filho lhe pede contas? E que homem (sim, porque é de um homem que se fala na sociedade patriarcal que é a nossa) que homem acredita ter que prestar contas perante a assembleia da família. Se nem sequer a esposa se dá a si mesma a importância de exigir explicação sobre os comandos do seu digníssimo esposo? Quando, em Maputo, ocorreram os motins (outros chamar-lhe-ão para sempre de “manifestações”) os revoltosos queixavam-se mais como filhos do que como cidadãos. O discurso de muitos era apelativo e, falando na televisão, diziam literalmente: “estamos à espera da resposta do nosso pai. “

Esta visão doméstica do país que somos é carinhosa e dá conta de um sentimento familiar que muito nos pode ajudar, enquanto nação em construção. Mas esta visão entra em choque com aquilo que a modernidade pode esperar de nós. Não seremos país se mantivermos essa familiaridade no tratamento das coisas do Estado. Uma família tem lógicas de gestão e de poder que não aplicáveis a países e governos. Os chefes de família não se escolhem por eleições. Nem são demitidos. Nem prestam contas. A privacidade da família pode sugerir compadrios, segredos e conluios.

Fique claro: enquanto filhos da mesma pátria, os moçambicanos devem ser uma família. Aliás, já são. Há que entender, porém, que a governação é um outro assunto. E quando se trata de assuntos de Estado não somos parentes: são cidadãos. Em lugar do espaço doméstico da família necessitamos do espaço democrático da cidadania.

Tudo isto vem a propósito das recentes nomeações ministeriais. Das mexidas no Governo, como lhe chamou a imprensa. Devo dizer, antes de mais, que aprovo essa movimentação. A questão essencial, porém, não são as pessoas. Por muito que as pessoas possam produzir diferença, a verdade é que necessitamos de sair dessa visão pessoalista e voluntarista.

A pergunta a fazer, para mim, é outra: que programas de trabalho esses novos dirigentes vão implementar? Que ideias novas criaram para situações velhas e novas? Numa palavra, o desafio é este: esses governantes vão, de facto, governar? Parece um jogo de palavras, mas não é. Desde há um tempo que se assumiu que a política comandava, em Moçambique, o exercício da governação. Nada de grave até aqui. Para uns, todavia, isso significou pura e simplesmente que o partido comandava o Governo, não no sentido de traçar as directivas políticas dentro das quais se esperaria que o Governo funcionasse. Mas no sentido da lógica política ser tomada como uma lógica de gestão. O chefe do Governo assume que um super-governo (que é o partido no poder) lhe deve dizer o que fazer no exercício quotidiano da sua função. Esta lógica de subordinação pode matar a governação. O governante espera pelo “camarada Secretário”. O governador aguarda por orientações partidárias. O administrador de distrito espera pela palavra de Secretário Distrital. O que sucedeu nos tumultos do mês passado é revelador: quando se esperava que o governo surgisse a público, surgiu o partido. É bom que os partidos surjam e digam coisas (se forem coisas com sentido), mas há que separar águas de discurso e, sobretudo, as águas de intervenção. O grande desafio da nossa governação não será vencido pela troca de actores. Pode mesmo trocar todo o Governo e nada de novo acontecer. Porque uma coisa é verdade e não apenas desculpa de ocasião do actual elenco: o contexto mundial é difícil e as carências nossas de hoje são as mesmas de muitas nações do mundo. Contudo, há países que estão dando resposta. E há os que vão cultivando mais fome que verdura. Urge revermos a relação entre o quadro político e a execução governativa. É urgente adoptar um pensamento criador, inventivo e capaz de superar a superficialidade da palavra de ordem. Tomemos, por exemplo, a agricultura. A “Revolução verde” não chegará sequer à condição de uma mudança esverdeada se não se enfrentar o câncro da terra com donos improdutivos, fazendo de um recurso vital um trampolim de especulação financeira. Para além de lavrar, é preciso varrer. É preciso limpar esse factor impeditivo. Pode o governo fazer isso? Gostaria muito que acontecesse, mas ficaria surpreso se fôssemos capazes. Porque, muitas das vezes, esses donos parasitas são gente de grande peso político. Este é um exemplo de como o lema do combate contra a pobreza nem sempre se cumpre com a necessária coerência. Porque há, entre nós, quem seja produtor de pobreza. Bastaria que parássemos de apoiar esses produtores para sermos todos um pouco mais ricos.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

NGANU ZA GORONGOSA, Um Livro de Todos Nós

Foi divulgada na manhã dessa Segunda Feira, aqui no acampamento do Chitengo, a publicação do livro NGANU ZA GORONGOSA(Tales from Gorongosa) da autoria de Domingos Muala e Virlana Tkacz , NGANU ZA GORONGOSA é uma interessante colecção de contos, contendo a sabedoria ancestral das comunidades que vivem ao redor da Serra da Gorongosa. A montanha lhes é sagrada. Nela moram os mais variados segredos e filosofias da vida e a alma de suas múltiplas existências.
Apesar de sacudidos pelos ventos da modernidade, os saberes antigos ainda fazem parte do cotidiano dos velhos que chamam o monte Gorongosa de casa e, como ficou provado, anseiam transmití-los a novas gerações.
Em Agosto e Setembro de 2009, Domingos Muala e Virlana Tkacz foram diariamente às comunidades e ouviram histórias acerca da montanha e do povo que lá mora.
Nascido no Chinde, Zambézia, Domingos lecionou português e Inglês na Escola Secundária na Vila da Gorongosa, antes de se juntar à equipa do Projecto de restauração do Parque Nacional da Gorongosa onde estuda as tradições, costumes e crenças do povo que vive na Grande Gorongosa. Amante das letras e dotado de profundos conhecimentos socio-culturaus das comunidades de Gorongosa, Domingos está actualmente a escrever a história do Chitengo, o acampamento do Parque Nacional da Gorongosa.
Virlana Tkacz é escritora, tradutora e directora artística da Yara Arts Group, uma companhia de teatro residente, do La MaMa Experimental Theatre em Nova York.
Acompanhados de uma boa dose de poesia, mais do que simplesmente serem lidos, os NGANU ZA GORONGOSA são para serem vividos, e só tira maior proveito deles, quem despido de preconceitos, souber mergulhar- se nas profundezas das filosofias de vida que eles encerram. É uma excelente ferramenta para entender o ser e estar dos Magorongozi e nós que com eles, por força dos destinos compartilhamos de forma intensa as multifacetadas convivências, temos por obrigação entender-lhes a cosmovisão e não nos podiamos valer de ferramenta melhor que NGANU ZA GORONGOSA. É aqui que cheguei à conclusão que o livro é de todos nós.
Parabéns aos autores especialmente ao professor Domingos com quem tenho a possibilidade de interagir e colher subsídios para cada conto que faz o NGANU ZA GORONGOSA

COITADO DO SOARES NHACA, EU BEM LHE AVISEI !!!!

A grande notícia dessa semana é sem dúvida a mexida que o P.R fez no seu governo. Cabe legitimamente ao P.R fazer mexidas do género sempre que pelos objectivos que estabeleceu e pretende alcançar, achar necessário. Há quem diga que essas mudanças ou a necessidades de operá-las deviam “roçar” a expectativa do povo que foi responsável por levar esse governo ao poder. As verdades e "verdadeiras causas" da mexida só o P.R verdadeiramente as conhece embora muitos achem que podiam ser tornadas públicas para evitar a onda de expeculação que anda por ai e eu cá me pergunto se o blog do Sr. Presidente não seria um óptimo espaço de interacção com o "maravilhoso povo" sobre a questão.

Umas das vítimas da mexida é Soares Nhacas antigo ministro da "conturbada" Agricultura, e isso me trouxe à memória, um texto que aqui publiquei, reagindo à forma eufórica como Nhaca entrara. Só para refrescar, eis o texto na íntegra, publicado em 12 de Janeiro 2008:

SOARES NHACA VAI MUDAR A AGRICULTURA MOÇAMBICANA

Na última edição do semanário o país, de acordo com Soares Nhaca, o recentemente nomeado ministro da agricultura, o sector que a menos de um mês dirige, vai mudar. Nos argumentos dessa mudança parece residir a razão da exoneração dos seus antecessores. Nhaca diz que a agricultura vai “se tornar um sector que produz renda e que contribua para o desenvolvimento económico e social do país” porque ele vai “cumprir rigorosamente as orientações do Governo e do partido no sentido da agricultura moçambicana”
Urge questionar. Será que os antecessores não cumpriram “rigorosamente” as orientações do Governo e do partido? Se não cumpriram, porque não? Será que existem e estão claras essas orientações do Governo e do partido no sentido da agricultura?
Que se lembre Nhaca que não basta querer mudar.
Que se lembre Nhaca que a euforia dos primeiros dias não é suficiente. Que se lembre Nhaca que está diante dum ministério e que todos os elementos devem estar sintonizados para que a mudança aconteça. Que lembre Nhaca que há “sabotadores” de mudanças que as vezes tem de ser exonerados em massa para “criar nova dinâmica”
Nhaca diz também que dentro de 6 meses Moçambique terá biocumbustível processado da jatrofa.
Que lembre Nhaca que essa fábrica será resultado do trabalho iniciado pelos seus antecessores e não apenas do seu eufórico desejo de mudar a agricultura, e que usando um pouco de humildade faça questão de mencionar isso.
Mudanças todos queremos mas habituados à discursos dissociado de acção, promessas não cumpridas, há espaço sim para esse cepticismo. Quando o presidente Armando Gebuza formou seu governo, nomeou os governadores vimos e ouvimos coisas, “fogo de palha”. Uma das mais forte foi a de Idelfonso Mwanantata que prometerá consultas médicas para emprestar os seus conhecimentos de médico ao hospital provincial de Tete. Por detrás dessa oferta/promessa, estava o desconhecimento das responsabilidades que lhe aguardavam como governador. Não será o caso de Soares Nhaca? Pode ter sido um bom sindicalista, um bom governador, um bom vice ministro de trabalho, mas ministro de agricultura é outra coisa. Que o digam seus antecessores. Ao Soares Nhaca peço que tenha calma. Que deixe as mudanças falarem por si próprias.